domingo, 7 de abril de 2013

A GASOLINA AZUL

A GASOLINA AZUL
Fabíola Ricci Spazzini
biola_ricci@hotmail.com

 
Figura 1. Béqueres contendo a AVGAS (gasolina azul) e querosene.

Todos nós conhecemos a gasolina utilizada em automóveis e motocicletas, a gasolina de cheiro característico e de cor que varia de tons amarelados e alaranjados. Mas você conhece e sabe pra que serve a gasolina azul? Porque ela tem essa coloração e quais seus componentes? No Brasil, atualmente encontram-se no comércio vários tipos de gasolina que são: gasolina do tipo A (73 octanas – gasolina amarela); gasolina do tipo B (100 octanas - gasolina azul); gasolina do tipo C (76 octanas - gasolina + álcool). A gasolina do tipo B, a azul é somente utilizada na aeronáutica, no entanto, muito se diz que se você utilizar essa gasolina em um automóvel obterá um desempenho fantástico e instantâneo. Mas isso é uma ilusão, pois a gasolina azul possui características especiais para melhor desempenho e segurança somente em motores aeronáuticos. Além de tudo o uso de gasolina azul em motores automotivos é ilegal, por uma questão ambiental.

A gasolina usada na aviação é um liquido volátil, que apresenta muito baixo ponto de fulgor, sendo muito inflamáveis nas temperaturas normais de operação, que são usadas no funcionamento do motor de um automóvel, por exemplo. O manuseio da gasolina azul deve ser cercado de cuidados, assim, evitando acidentes como incêndios e envenenamentos. Assim como as demais gasolinas, a gasolina de avião, também denominada de AVGAS - Aviation Gasoline é composta de uma mistura de hidrocarbonetos saturados que possuem desejada propriedade de serem poucos reativos, dificilmente reagindo quimicamente com outros produtos que podem entrar em contato. A gasolina é fabricada a partir de petróleo refinado utilizando vários processos para melhorar a qualidade e volume de combustível produzido. Normalmente, a refinaria terá uma série de processos para fabricar componentes que são então "misturados" para dar um combustível de qualidade adequada para o mercado. AVGAS só pode ser fabricado a partir de um conjunto limitado de componentes de alta qualidade. Como resultado, apenas um número limitado de refinarias do mundo têm capacidade de fabricação de AVGAS. Componentes como éter ou álcool não são permitidos na mistura já que eles têm um baixo conteúdo energético e reduziriam o leque de aeronaves. A gasolina de aviação é menos volátil que a gasolina automotiva, para evitar a formação de vapor nas tubulações, o que poderia levar a parada do motor, especialmente em condições de grandes altitudes e consequentemente baixa pressão atmosférica. O poder calorífico da gasolina de aviação de 100 octanas é de cerca de 11.400 cal/g. A AVGAS deve possuir grande estabilidade química e alto poder antidetonante. A estabilidade química é melhora com aditivos antioxidantes, que evitam a polimerização e a precipitação de componentes. A polimerização é muito comum em gasolinas automotivas e foram borras gelatinosas nos tanques e componentes do sistema do combustível. Outros aditivos são utilizados como dispersantes, detergentes, anticorrosivos e para evitar acumulo de cargas eletrostáticas. Um corante é utilizado para identificar o tipo de gasolina, evitando assim erros no abastecimento e fraudes em postos de combustíveis. A grande capacidade antidetonante da gasolina azul é garantida por um aditivo especial: o chumbo tetraetila, de cor avermelhada. Esse aditivo é proibido para uso em gasolinas automotivas no Brasil, e em seu lugar é usado álcool etílico (etanol) na produção de aproximadamente 25%. A detonação é a queima espontânea e instantânea do combustível, antes da vela fornecer a faísca, o que prejudica o desempenho e pode até mesmo, em alguns casos, destruir o motor. Na realidade o chumbo tetraetila nunca é usado sozinho, mas sim como componente de um aditivo antidetonante bem mais complexo, denominado Etil-fluido. Esse aditivo é composto por 61,45% de chumbo tetraetila, 17,85% de brometo de etileno, 18,80% de cloreto de etileno e cerca de 1,9% de produtos inertes (não reagem) e corantes.



Figura 2. Molécula do chumbo tetraetila.

É importante saber que a AVGAS é um composto altamente venenoso, pois além da toxidade normal dos hidrocarbonetos leves, o chumbo pode provocar uma intoxicação chamada saturnismo, ou plumbismo, cujos efeitos são nefastos, causando falência renal e hepática, problemas neurológicos e cerebrais, incluindo demência e vários outros efeitos, podendo causar inclusive a morte. Devido a essa alta toxidade é recomendado evitar inalar a AVGAS e os gases de escapamento dos motores do avião, e nunca se deve utilizar a AVGAS como produto de limpeza, pois o chumbo pode penetrar na pele, ou ser inalado facilmente. O abastecimento de gasolina de avião deve ser feito cautelosamente, em lugares abertos e por pessoas autorizadas. A aeronave deve estar aterrada ao veiculo abastecedor para evitar faíscas provocadas pela eletricidade estática. A gasolina de avião brasileira é produzida em sua grande maioria na Refinaria Presidente Bernardes (RPBC), em Cubatão/SP. Autoridades ambientais pressionam os produtores de AVGAS para eliminar totalmente o uso de chumbo como componente de aditivo de compostos antidetonantes, porém até agora a eliminação do chumbo não foi feita, pois não foi encontrado nenhum substituto a altura. Pesquisas nessa área visam à substituição dos motores de aviação ciclo Otto por motores ciclo Diesel, de dois ou quatro tempos, eliminando assim o uso da gasolina azul.

Referências:
TRINDADE, M. A. G; RINALDO, D; VILGAS, W; ZANONI, M. V. B. – Determinação de corantes de marcadores do tipo azo e antraquinona em combustíveis por cromatografia líquida com detecção eletroquímica. Revista Química Nova, Vol. 33, No 1, 146-150, 2010.  http://blog.ftc.br/cienciasaeronauticas/?p=628
http://www.airbp.com.br/combustiveis_gasolina.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Tetraetilchumbo

Nenhum comentário:

Postar um comentário